A Bovespa recuou ontem (4/8) para seu nÃvel mais baixo desde janeiro. A queda foi de 3,5%, o que leva a perda acumulada neste ano a 13%. Com grande peso no Ibovespa, as commodities puxaram a baixa. As maiores perdas foram da Petrobras (-4,69%) e a da Vale (-7,15%). No ano, as ações preferenciais das duas empresas acumulam baixas de 25,12% e 29,05%, respectivamente.
O desempenho da bolsa em 2008 é o segundo pior desde o Plano Real. Desde o inÃcio do ano se vê a Bovespa em desvalorização e, agora, justamente as commodities derrubam a cotação das ações mais badaladas do paÃs. O Ibovespa caiu de 73.516 pontos no dia 20 de maio para 55.609 pontos ontem – baixa de 24,36%. Só neste comecinho de agosto, a queda é de 6,55%.
O capital externo foge da bolsa como o diabo foge da cruz. O saldo das operações de estrangeiros na Bovespa está negativo em R$ 14,4 bi neste ano – a pior cifra da história.
É uma escalada que ninguém sabe onde vai parar.
5 de Agosto de 2008
Em sua manchete de hoje (4/8), o New York Times destaca o temor, por parte dos agentes imobiliários americanos, de uma onda maior de inadimplência. “Mutuários com bom crédito em número crescente estão atrasando seus pagamentos, justo agora que os problemas com hipotecas subprime começam a estabilizarâ€, afirma o jornal. Ou seja, à medida que a primeira onda de inadimplência parece estar refluindo, uma muito maior está se formando.
Enquanto isso, no Brasil, o lucro do Bradesco no primeiro semestre de 2008 é o quarto maior da história dos bancos brasileiros. O ganho foi de R$ 4,1 bilhão (evolução de 2,4% em relação ao lucro de R$ 4,007 bilhões do mesmo perÃodo de 2007), o que corresponde a R$ 1,34 por ação e à rentabilidade de 28,6% sobre o patrimônio lÃquido médio.
É o descolamento à toda. Pelo menos no setor bancário.
4 de Agosto de 2008
“Mais setas parecem apontar para uma recessãoâ€, diz o New York Times de hoje. “A economia americana desacelerou de abril a junho, enquanto os números para os últimos três meses de 2007 foram revisados para baixo e mostram uma contraçãoâ€, afirma o jornal. É a primeira retração oficial desde a última recessão, em 2001.
Segundo o Times, o crescimento morno no segundo trimestre, combinando com uma disparada nos pedidos de seguro-desemprego, seriam clara indicação de que a economia está à beira de uma recessão – a ser iniciada, possivelmente, no final deste ano.
Um novo dado divulgado hoje cedo confirma este cenário lúgubre. A taxa de desemprego nos EUA subiu para 5,7% em junho. É o número mais alto em quatro anos, provocado pela perda de 51 mil empregos no mês passado. Ressalva do Times, em versão online, “embora a economia tenha eliminado empregos pelo sétimo mês consecutivo, o declÃnio em julho foi menos severo do que os economistas esperavamâ€.
1 de Agosto de 2008
Convido meus leitores (tem alguém a�) a participar do fórum que está na homepage da Época NEGÓCIOS com esta pergunta:
Com a volta da inflação e a instabilidade na bolsa, como você planeja administrar seus investimentos?
O link é este aqui:
http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/0,,EDF38805-8373,00.htmL
31 de Julho de 2008
Deu no New York Times: “Economia forte impulsiona o Brasil para a arena mundialâ€. O correspondente do jornal no PaÃs, Alexei Barrionuevo, diz que “o Brasil, maior economia da América do Sul, está finalmente posicionado para tornar real seu potencial como um competidor global.â€
A matéria traz pouca novidade para qualquer um familiarizado com o paÃs, salvo pelo realce de um ou outro dado sócio-econômico. “Famoso há tempos por sua distribuição desigual da riqueza, o Brasil encolheu seu ‘gap’ de renda em seis pontos porcentuais desde 2001, mais que qualquer outro paÃs na América do Sul nesta décadaâ€, escreve Barrionuevo, citando um economista do Banco Mundial. “Mas o Brasil também está gastando mais que seus vizinhos em programas sociais, e o gasto público geral continua a ser quase quatro vezes mais alto que o do México como porcentagem do PIB.â€
O Times avalia que a expansão econômica tende a durar, já que o paÃs “diversificou significativamente sua base industrial, tem enorme potencial para expandir um setor agrÃcola já aquecido em direção a novos campos e detém um tremendo pool de recursos naturais inexploradosâ€.
A Ãntegra da matéria, longa e extremamente positiva, está aqui.
31 de Julho de 2008
O blog de negócios do New York Times, Dealbook, chama a atenção para a explosão das grandes falências nos EUA. Na principal história do dia, o blog observa que ainda na metade de 2008, as falências na casa do bilhão estão no nÃvel mais alto em cinco anos. “Parece que estamos no meio de uma ‘tempestade perfeita’ (‘perfect storm’, brincadeira com o filme de George Clooney), levando a mais falências: altos nÃveis de endividamento, altos custos de energia e matérias-primas e fraqueza na economia dos EUAâ€, diz o responsável pelo site de medição de falências naquele paÃs.
Veja a Ãntegra aqui.
30 de Julho de 2008
Almocei há pouco com Roberto Apelfeld e Marzo Bernardi, da Western Asset/Legg Mason Fundos de Investimento. A dupla aposta em uma desaceleração não muito dramática da economia internacional. Um cenário que, sim, afeta o mercado de commodities, mas não da maneira brutal que alguns de seus pares temem.
Apelfeld entende que o BC optou por dar uma pancada violenta de uma vez na inflação, ao elevar os juros básicos em 0,75 ponto percentual nesta semana. Dói mais no médio prazo, claro, mas o aperto monetário tende a durar menos. O que permite pensar em uma recuperação econômica mais rápida depois de debelado o surto inflacionário.
A gestora da dupla ganhou dinheiro ontem com o rearranjo do mercado futuro de juros, que foi surpreendido pela ação mais radical do BC e teve de corrigir a trajetória da Selic para os próximos meses. Prevaleceu a aposta da Legg Mason em um BC batendo com força na inflação. “Vão ser três pauladas fortes em vez de cinco médiasâ€, afirma Apelfeld.
A firmeza demonstrada pelo BC agora, segundo ele, é importante para o discurso de longo prazo da autoridade monetária brasileira. “Daqui a três ou quatro anos, se houver nova crise, ninguém duvidará do BC brasileiroâ€, diz. É o tipo de credibilidade que o BC mexicano tem desde 94, quando enfrentou com firmeza o chamado “efeito Tequilaâ€. A confiança no defensor da moeda é mantida, apesar das mudanças na diretoria do banco central.
Olhando para trás, a dupla pondera que as taxas reais tão altas de hoje são fruto da inconsistência do Banco Central no passado. E de um rigor fiscal que melhorou muito, mas ainda é insuficiente. “O BC ainda fica como um zagueiro, segurando todas lá atrásâ€, afirma Apelfeld.
Sobre bolsa, nenhuma previsão definida. Em relação a outros emergentes, eles observam, o Brasil ainda tem ações a preços atraentes. Ou seja, há potencial para a volta do fluxo de investimentos estrangeiros. Por outro lado, com a aversão ao risco aumentada, por mais que haja oportunidades, há menos gente disposta a investir no paÃs. Para que lado a balança vai pender, e em que ritmo, a dupla não se arrisca a prever.
25 de Julho de 2008
Na edição da Business Week que acaba de ser lançada, o mega-investidor Mark Mobius é questionado sobre quais são os mercados emergentes mais excitantes. Resposta:
“O número um seria o Brasil, de longe. Quero dizer, o Brasil tem feito tudo certoâ€, diz Mobius. “O presidente Lula fez os movimentos certos em termos de assegurar que a moeda está em boa forma e a situação fiscal é boa. E eles são um tremendo exportador de minerais (…) e de produtos alimentÃcios.â€
Mobius cita a Rússia como segundo mercado, por causa do petróleo e do gás. Ele praticamente descarta a Ãndia, no momento. Mas ainda é otimista em relação à China.
25 de Julho de 2008
Os crÃticos do Banco Central ganharam munição instantânea para reclamar da última decisão do Copom. O dólar caiu ontem (24/7) para menos de R$ 1,58, derrubado pela alta dos juros no primeiro dia depois do anúncio da medida.
Já posso imaginar Paulo Skaf repetindo o resmungo: “De que adianta subir juro se o governo não controla o gasto público?†Tem gente no Brasil que tem saudade da inflação.
Também no pós-Copom, a bolsa caiu 3,34% e atingiu o menor nÃvel em seis meses (57.434 pontos). É, claramente, uma fuga do turbilhão do mercado acionário para a zona de conforto das aplicações remuneradas pelo juro alto. Movimento feito pelo investidor doméstico, mas também pelos estrangeiros, que continuam vendendo ações brasileiras.
Importante: os estrangeiros estão fugindo da bolsa brasileira; não do Brasil. Tanto é verdade que o fluxo de moeda estrangeira para cá não para de derrubar a cotação do dólar. O excesso de oferta já derrubou o preço da moeda americana em 11,1% este ano, sendo 1,1% apenas neste mês. Agora, com o aumento do diferencial de juro, a tendência é que mais estrangeiros invistam na renda fixa brasileira, contribuindo para inundar o mercado interno de dólares e para empurrar sua cotação para a casa de R$ 1,50.
Com isso, o Brasil já tem o sétimo Big Mac mais caro do planeta (Ãndice da revista The Economist para comparar o custo de vida em diferentes paÃses) e a moeda mais valorizada do mundo emergente.
Reportagem da Folha de hoje revela que, para a Fazenda, a alta dos juros foi maior que a necessária. “Ministério evita confronto público com o BC, mas avalia que a inflação já sinaliza recuoâ€, afirma o jornal. “Avaliação é a de que o PIB não será muito afetado se o BC compensar o aperto maior do juro deste mês com altas menores até o final do ano.â€
Os apoios de peso vieram de fora. Em entrevista à mesma Folha, Paul Krugman defendeu a ação do BC no Brasil. Na solenidade de inauguração de uma estrada no Ceará financiada pelo BID, seu presidente, Luis Alberto Moreno, disse que o PaÃs está no caminho certo ao aumentar os juros para cortar a inflação.
Vem aà muita pressão para cima de Henrique Meirelles e companhia.
25 de Julho de 2008
O Banco Central intensificou ontem (23/7) o freio na economia ao elevar os juros básicos em 0,75 ponto percentual. A Selic chega, assim, a 13% ao ano.
A medida indica uma preocupação com a inflação maior do que a de outros paÃses emergentes. O Brasil já elevou sua taxa de juros em 1,75% neste ano, ante 1,25% no Chile, 1% na Turquia e 1% na Rússia.
Cumprindo um ritual que há tempos ficou previsÃvel e monótono, indústria e centrais sindicais atacaram a decisão e pediram corte de gastos. “De que adianta subir juro se o governo não controla o gasto públicoâ€, perguntou Paulo Skaf, presidente da Fiesp, na Folha. Ora, é justamente porque o governo não controla como deveria o gasto público que o BC tem de forçar a mão no aperto monetário. O que queria Paulo Skaf? Que Henrique Meirelles “denunciasse†seus colegas da Fazenda pela falta de pulso com as despesas e, resignado, deixasse a inflação disparar?
O BC brasileiro é, sim, o mais agressivo no combate à inflação. Mas o Brasil, em termos inflacionários, é um alcoólatra em recuperação. O paÃs sofre do que os economistas estão chamando de “memória inflacionáriaâ€, o que força o BC a ser mais conservador, porque não podemos correr o risco de cair em tentação indexatória e sofrer uma recaÃda.
Os resultados da linha dura de Meirelles e companhia são satisfatórios. Nossos juros básicos, é verdade, só não são mais altos do que os da Turquia – eterna campeã da categoria, hoje com taxa nominal de 16,8%. Em compensação, muitos de nossos pares têm inflação maior. A Rússia acumula 15,1% nos 12 meses terminados em maio, a Ãfrica do Sul, 11,4% no mesmo perÃodo, e as Filipinas, 11,4% no ano fechado em julho. Nossa inflação ao consumidor é pouco mais que a metade disso: 6,1% nos últimos 12 meses. E, ainda assim, está fora do centro da meta, caminhando para o teto.
Antes de criticar, é preciso mais análise, para entender que o BC sente uma pressão maior sobre os preços e trabalha já para levar o IPCA para a meta em 2009.
Meirelles, desse jeito, vai abortar o crescimento? Não necessariamente. Luciano Coutinho, presidente do BNDES e desenvolvimentista de carteirinha, disse ontem, durante um evento em São Paulo, que o aumento dos juros não afetará investimentos. Seu argumento é que o retorno das apostas no Brasil continuará muito atraente para as empresas. Coutinho observou ainda que, no caso da TJLP (taxa de longo prazo cobrada pelo BNDES em seus empréstimos), o juro está negativo – ou seja, é menor que a inflação.
Resumo da ópera: elevar os juros do jeito que Meirelles e companhia estão fazendo é das coisas mais antipáticas que se pode fazer em polÃtica econômica. Mas parece inevitável que seja assim. E não é o fim do mundo.
24 de Julho de 2008